quinta-feira, 29 de outubro de 2020

GIGANTES OU MOINHOS DE VENTO? NO APOIA.SE!

Saudações joviais, 3d6 leitores!

Essa era uma ideia que eu namorava tem é chão... Então finalmente reuni coragem para abrir um projeto de financiamento coletivo recorrente para o blog afim de buscar apoio de leitores e seguirmos nessa jornada por entre os mundos e personagens peculiares que conhecemos aqui no blog.

Para aqueles interessados em considerar dar esse tapinha nas costas e esse troco para contribuir pro desenvolvimento do blog, só clicar aqui e conhecer a página da campanha no Apoia.se!

No mais é isso. A sorte está lançada, que os dados sejam gentis e que as Musas nos favoreçam! Quem quiser fazer sugestões ou críticas, deixem comentários aqui no post.

Desde já agradeço aos que estão lendo estas linhas e lerão as vindouras.

Bons ventos.

MWXS

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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O BLUES DE NOVA BABEL: A DANÇA DESSA NOITE (ATO 3)


Escrito por
MIKE WEVANNE

3.

Obs: leia as partes anteriores dessa história pelos links no final do post.

Susane trocou o traje do balé pelo jeans justo e pela camiseta de mangas rasgadas. A roupa dava a ela um ar rebelde, mas não escondia a delicadeza dos movimentos com que ela fazia qualquer coisa. O assunto sobre o qual as amigas estavam conversando não a agradava ao ponto de lhe roubar o ânimo, mas ela sabia que o sábado não ia acabar ali, com o fim da tarde de ensaio. As três estavam terminando de se trocar enquanto acertavam seus assuntos. Além de colegas na companhia de dança Voo dos Cisnes, também trabalhavam juntas no hotel Nichibotsu.

— Eles vão chegar na terça-feira. Vai dar tudo certo. — Carina tentou afugentar o medo das amigas enquanto tentava disfarçar o próprio.

Susane sabia daquela farsa. Sorriu um sorriso sem lastro de alegria que fosse suficiente para Carina não perceber seu desconforto. Apenas Hina comprou as duas mentiras, porque não se importava e porque sabia que as três estavam afundadas demais no problema para fazer algo a respeito, então não queria se preocupar com o que não tinha solução. Então elas voltaram a discutir sobre onde iriam passar a noite de sábado.

— Ouvi falar que o Última Chance tá fechado. A polícia não bateu lá ou coisa assim?

— Foi um assassinato. Um cara atirou noutro. Mas acho que já abriram de novo. — Carina adorou a oportunidade para mudarem de assunto.

— Não sei… Vamos pro Cantina Luna então? Eu amo a banda que vai tocar lá essa noite, a versão deles de “Todo carnaval tem seu fim” é linda! — Hina seguiu tocando a empolgação que Carina queria puxar. Era uma coisa que as duas faziam.

A notícia sobre o Última Chance fez Susane sentir calafrios. Polícia, crime e morte foram imagens que lhe obscureceram de vez o humor. O gerente o Nichibotsu as envolvera em algo ilegal e elas estavam numa situação onde não tinham muita escolha: de um lado a ameaça velada presente no caso de rejeitarem, do outro o dinheiro oferecido, um valor bom demais para dispensar. Em algumas semanas a companhia ia sair em sua primeira apresentação fora do país e elas precisavam da grana para custear a viagem. Susane não achava que a necessidade era suficiente para a impedir de amaldiçoar a situação.

Terça-feira.

Terça-feira ela, Carina e Hina iriam entrar num esquema de tráfico de drogas debaixo do nariz dos donos do Nichibotsu, tudo articulado pelo gerente e executado por um punhado de pau mandados que trabalhavam no hotel, incluindo as três amigas. A ansiedade fazia o estômago de Susane revirar.

Débora chegou e interrompeu a conversa com um beijo em Susane, depois cumprimentou as demais. Quando voltou a olhar para a namorada percebeu que tinha algo a perturbando.

— O que houve? O que vocês fizeram com a Susane?

Carina e Hina se olharam por alguns segundos, não gostaram do tom com que aquilo foi dito.

— Não fizemos nada, ela quem está de mal com a vida hoje. Nós estamos indo pro Cantina Luna, tu vai com a gente? — O rosto de Hina tinha um sorriso cínico e sonso estampado que só as amigas viam que estava ali. Porque Hina já sabia da resposta da irmã antes mesmo de ter perguntado.

— Ah, não… Tô cansada por hoje. Tudo bem? — Ela terminou de se trocar e desabou num banco, um pouco desconcertada por não querer acompanhar o rolê delas. Era a reação que Hina queria provocar para mudar o foco da conversa.

Susane acenou e sorriu condescendente. Mais uma mentira em que apenas Carina lhe seria cúmplice.

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Quando chegaram ao Cantina Luna o lugar já estava cheio, mas conseguiram uma das várias mesas que tomavam a calçada e pediram cerveja e batatinhas. Qualquer sombra que houvesse passado durante aquela conversa no vestiários da companhia tinha desaparecido. Mas não para Susane. Naquela noite, excepcionalmente, ela não acompanhava a jovialidade típica do trio. Tinha minhocas na cabeça. Pior, mais pareciam serpentes lhe envenenando o espírito.

Carina sabia do estado emocional da amiga mas preferia continuar o ritmo e aproveitar a noite. Eventualmente no meio do caminho ela resgataria Susane daquele humor sombrio. Hina a seguia, como de costume. As duas eram unha e carne, de modo que se alguém se metesse diante do trem desenfreado que a dupla formava, seria altamente recomendável sair da frente.

Depois de poucas horas e muita cerveja, as três entraram num dos ambientes internos do Luna onde ficava o palco. Quando a banda Egonia começou a se apresentar e o público provocou uma onda contagiante de agitação e calor, Carina percebeu o fracasso do seu plano de fazer com que Susane entrasse no mesmo barco em que ela e Hina estavam, então já julgava a amiga um caso perdido para aquela noite. A dupla pegou a mão uma da outra e foram dançar, seguindo adiante no mar da madrugada. Foi durante o cover de “Todo carnaval tem seu fim” que deixaram definitivamente Susane náufraga para trás.

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Tudo em volta de Susane eram sombras e sorrisos desconhecidos. Seus sentidos estavam ofuscados por um véu levantado pelo álcool e pela euforia coletiva. Ela não queria estar ali. Até mesmo a alegria das duas amigas cantando e dançando juntas, possuídas pelo alvoroço provocado pela música, fazia com que se sentisse mal.

Dali a um mês a companhia faria uma apresentação internacional, um grande passo para a sua carreira, era algo excitante demais. Dali a três dias ela entraria num esquema criminoso para pagar pela viagem. Ela queria muito aproveitar a noite com as amigas mas não conseguia, estava sob uma bruma que lhe turvava as emoções.

Então seu olhar trombou com outro igualmente perdido. A feição estranha de alguém que parecia estar debaixo da mesma sombra que ela. Com os olhares presos um no outro, Susane sentiu ele buscar algo dentro dela, um calafrio fez seu rosto empalidecer. Não que ele pudesse ver na escuridão das luzes piscantes e talvez por isso ele tenha chegado mais perto, mas quando isso aconteceu o rosto de Susane já havia recuperado o rubor. A invasão era mútua.

Ela olhou para as amigas, que já tinham decidido tomar um rumo diferente do dela, e foi conhecer o estranho. Depois de alguns minutos Jack não era mais tão estranho e os dois ficaram mais próximos. Fisicamente também. Principalmente. A dança levou a um abraço e o abraço levou a um beijo e o beijo a outro beijo. Que exigiu mais.

Conversaram bastante. Susane sentiu que Jack estava tão desesperado quanto ela, ambos queriam se desligar por algumas horas, e tiveram certeza de que seriam uma ótima companhia um pro outro no curso de ação para realizar esse desejo.

“Vou para casa. Amanhã eu falo com vocês. Se cuidem.” — Foi a mensagem que Susane enviou pro celular de Hina. Deixando para trás as sombras que estavam lhe assombrando naquela noite para escolher sombras mais aconchegantes onde se aninhar. Mesmo se tratando do kitnet apertado e abafado do Jack, mas eram aconchegantes mesmo assim.

FIM

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Saudações joviais, 3d6 leitores!

É isso. Mais uma história encontra seu desfecho, abrindo caminho para uma nova... 

Gostaram do conto? Deixem comentários sobre o que acharam, suas impressões e críticas também! Assim posso saber onde estou acertando e onde estou errando para poder melhorar cada vez mais o conteúdo do blog!

E o que virá? Fiquem a vontade para deixar sugestões! Gostariam de mais uma história de O BLUES DE NOVA BABEL? Ou preferem voltar à CARONTE? Algo novo? Tem muita coisa massa que quero contar aqui no blog!

Vamos descobrir na próxima sexta-feira com o favor das Musas!

Bons ventos.

PS: se você chegou aqui antes de ler os capítulos anteriores de "A Dança dessa noite", você pode encontrar a parte 1 neste link e a parte 2 aqui.

— MWXS

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sexta-feira, 17 de julho de 2020

CARONTE: BOTECO DOS MORTOS (ATO ÚNICO)


Escrito por
MIKE WEVANNE

Dedicado a
GEORGE ANDREW ROMERO
In memorian

O homem batia com os pulsos no portão metálico do bar, ignorando que o lugar estava fechado. Verdade seja dita, todos os lugares estavam fechados desde que o Dia do Julgamento aconteceu. Não aquele das máquinas dando o troco, mas aquele da ladainha, “sem espaço no Inferno, os mortos caminharão sobre a Terra” coisa e tal. Em todo caso depois da desgraça toda, portões trancados não significavam apenas a tentativa de impedir que um lugar fosse invadido, mas também apontavam que o tal lugar ainda não havia sido invadido mesmo! E o mais relevante a ser considerado: que ele guardava alguma coisa, potencialmente de valor.

Obviamente dar pancadas insistentes e arrebentar as mãos esperando que a carne vença o metal era uma atitude estúpida… Não que aquele homem tivesse outra opção, afinal ele era um desmorto e o bom senso já não fazia parte do seu repertório intelectual para que ele pudesse avaliar a própria burrice. De qualquer forma o impasse entre o cadáver ambulante e o portão foi resolvido quando Michelle atravessou a cabeça do desmorto com um facão.

Wagner veio logo atrás, apanhou o corta-vergalhão da mochila e arrebentou o cadeado. Michelle empurrou o portão rolante para cima e a dupla pulou para dentro do bar logo em seguida.

— O que diabo ele queria? Aqui dentro não tem ninguém! — Michelle sussurrou enquanto assobiava baixo procurando por algum animal que pudesse ter chamado a atenção do ambulante do lado de fora. Nada.

— Pau no cu dele. Eu só quero descansar de forma decente por algumas horas. — Paciência não era o forte de Wagner, mas as horas que os dois estavam perambulando não tinham feito bem para os nervos de ninguém. — Michelle, tu disse que o bicho morto tava tentando pegar alguém aqui dentro, o cadeado tava trancado do lado de fora, merda!

— Eu pensei que a gente poderia ajudar alguém, como eu ía saber que o monstro tava zoado e cismado com o portão?

Wagner olhou desconfiado, Michelle sabia o que aquele olhar de reprovação significava. Ela não tinha dúvidas de que ele reconhecia suas habilidades, o que não significava que aprovasse as escolhas dela quando inventava de bancar a heroína. Ambos já tinham visto coisas demais para saber que era uma linha de ação perigosa. Não apenas porque os desmortos poderiam apanhá-los num descuido, mas também porque nem sempre eles podiam confiar naqueles que tentavam salvar. Foram roubados duas vezes e em outras duas tentaram assaltá-los.

O ser humano nunca foi muito eficaz em estabelecer prioridades, nem antes e nem depois do fim do mundo.

Os dois ficaram ali por alguns minutos sem saber o que fazer. O protesto de Wagner era justo, ambos estavam cansados. Então Michelle deu de ombros, foi para detrás do balcão e pegou uma garrafa de cachaça.

— Bom, pelo menos vamos repor nosso estoque de água. — Ela puxou dois copos de dose e os encheu até transbordarem. — O quê? Não precisa fazer careta de novo, ali no canto tem dois garrafões de água mineral! Isso daqui é só pra molhar a goela!

— Aí sim, jogadora! — Wagner tirou a expressão emburrada do rosto e os dois brindaram.

Antes de beber, Michelle ergueu o copo numa pose quase cerimonial, falando com alguém invisível — Ave, Imperador! Nós que vamos morrer te saudamos! — então entornou a dose de pinga.

Três shots depois talvez eles não estivessem mais com os reflexos tinindo, mas estavam com o ânimo restaurado, com os cantis cheios de água e com alguns pacotes de salgadinhos que poderiam ser úteis para enganar a fome ou numa troca com outros sobreviventes.

Quando saíram do bar eles esbarraram novamente com o desmorto inerte jogado no chão. A cabeça partida em duas. Antes de irem embora Michelle riscou a parede com um triângulo virado para baixo ao lado do portão. Chamativo o suficiente para que eles vissem e lembrassem da água que deixaram escondida caso passassem por lá novamente, discreto o suficiente para não chamar a atenção de outras pessoas.

Enquanto Michelle fechava o portão, fazendo questão de deixar o cadeado arrebentado bem à vista para mostrar que o lugar havia sido pilhado, por curiosidade Wagner se ocupou em vasculhar os bolsos do cadáver no chão. Três cartelas de antiácidos e uma carteira cheia de coisas que não tinham mais valor, como dinheiro, cartão de crédito e um cartão de visitas. — “Alcoólicos Anônimos” — Ele leu e mostrou para Michelle, que já estava pronta para ir embora.

— Lembra o que ouvimos naquela rádio outro dia? Sobre as aglomerações de monstros nos shoppings, como se eles estivessem indo para lá seguindo algum tipo de instinto idiota de quando eram vivos? — Ela tirou do bolso um pequeno cantil metálico e molhou os lábios com a cachaça que tinha o reabastecido. Ofereceu a bebida para Wagner, que ficou em silêncio por uns segundos, refletindo sobre aquele papo todo. Era algo que ele detestava fazer.

— Não… Para mim já deu. — Acenou, incomodado com o sarcasmo da amiga, e guardou os comprimidos na mochila. — Pau no cu dele! E não faz mais a gente perder tempo, merda! — Então os dois pegaram seu rumo para qualquer lugar.

FIM.

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Saudações joviais!

Ontem (16 de julho) foi aniversário do falecimento de George Romero, o pai dos zumbis modernos como os vemos na maioria das obras da cultura pop atuais, e como entusiasta do gênero que sou, achei que seria uma boa oportunidade para escrever um conto em homenagem (e desde já pedindo desculpas pelo conto no meio dos capítulos de A dança dessa noite, mas espero que seja uma causa justa).

Sexta-feira que vem seguimos com programação normal... E para aqueles que chegarem até aqui, fica o pedido de sempre: comentem suas impressões sobre o texto e compartilhem com os amigos, se o material merecer, claro.

Bons ventos.

MWXS

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