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sexta-feira, 14 de julho de 2023

CARONTE (ATO ÚNICO)

Escrito por
MIKE WEVANNE

O chumbo voou através do corredor do hospital enquanto a horda cambaleante avançava na direção de Álvaro… A multidão tropeçava por cima dos cadáveres caídos, das macas e cadeiras espalhadas pelo caminho, tudo que havia sido deixado para trás durante o início do fim de tudo. As manchas de sangue que pintavam as paredes e o chão de vermelho e negro já estavam ali antes de Álvaro ter despertado a atenção dos desmortos.

Cada metro a menos da distância entre o mercenário e os zumbis significava que os momentos finais da vida de Álvaro Ramires ficavam mais próximos, porém ele estava ali para lutar até o último segundo: ganhando tempo para a fuga da Doutora Naomi e pro resto da Equipe Caronte, uma punhado de pescoços duros que não tinham mais nada para perder, ainda assim ajudavam da melhor forma que sabiam: localizar e destruir!

O fuzil cuspia sua munição, decapitando e desmembrando. A carne daquelas pessoas que haviam esquecido de morrer era dilacerada pelo chumbo, mas pouco sangue ainda jorrava pelos buracos feitos em seus corpos, apodrecidos há dias, seu sangue adquirira uma viscosidade repugnante. Eles não sentiam mais medo nem possuiam qualquer sinal de consciência, a única coisa que lhes restou era a fome. Inexplicável. Eram menos que animais, tomavam seu caminho para fora de qualquer classificação biológica que pudesse explicar sua existência.

As rajadas da arma de fogo os retardavam, mas a turba seguia, sem hesitação, estendiam seus braços decrépitos e abriam as bocarras enegrecidas pela gangrena generalizada, em busca de carne. A carne de Álvaro!

Subitamente o barulho ensurdecedor dos cartuchos explodindo deu lugar a uma sequência curta de pequenos cliques. Sem munição.

O jogo estava acabado.

Álvaro não tinha muito tempo para pensar a respeito, ele aprendeu a agir sob pressão e reflexo. Pegou sua faca e a arremessou no último desmorto que teve a oportunidade de abater. A lâmina cravou em cheio na testa do alvo, que caiu como se alguém tivesse lhe apertado um botão de desligar, caiu como se finalmente tivesse percebido seu destino manifesto:

— ESTÁ MORTO, CARALHO! — Em seguida Álvaro olhou em volta e tomou a primeira porta que viu antes de quase ser apanhado pelas mãos e dentes dos lazarentos. Tudo ficou escuro. Ainda sob ato reflexo tateou até a tranca da porta enquanto usava o próprio corpo como escora.

Pelo cheiro e pelo espaço reduzido em que acabou confinado, deduziu que estava numa dispensa de materiais de limpeza. Estava num beco sem saída.

“A barca do ceifeiro finalmente o levou pro outro lado do rio”, era como diziam em seu grupo sobre os membros que morriam em missão. A Equipe Caronte era formada por homens e mulheres que iam pelo rio do Inferno e sabiam que um dia a viagem chegaria ao final.

Na escuridão, Álvaro tentou se acalmar, controlar a respiração, reduzir a adrenalina e pensar. Sentou, suspirou profundamente e esperou… Não tinha mais nada para fazer além de esperar, não haveria resgate para ele. A engenheira química que foram resgatar já estava salva e sua missão estava cumprida. Ao custo de sua própria vida? Álvaro pensou que era uma troca justa. Considerando que os líderes da comunidade estivessem certos em relação à doutora.

Entre o vazio escuro daquele lugar e a algazarra insana do lado de fora, a iminência da porta desabar era uma preocupação. Álvaro começou a perceber que não era tão durão quanto imaginava, a ameaça da morte já assediava os limites dos seus nervos. A situação se tornou uma questão de escolha: morrer por inanição preso naquele buraco ou se entregar às criaturas e ser transformado em mais um dos que andavam sem estar vivos.

A segunda opção era algo que não aceitaria. — Nunca! — Tateou os objetos em volta, pensou em cometer suicídio bebendo o material de limpeza, mas isso poderia condená-lo a uma longa agonia antes que a morte chegasse… Se realmente chegasse.

Então Álvaro praguejou que talvez tivesse se livrado cedo demais de sua faca.

FIM

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sexta-feira, 20 de novembro de 2020

SOMBRAS DO NADA: A RAINHA NAS SOMBRAS (ATO 1)

Escrito por
MIKE WEVANNE

Para
ERGA

1.

Everton Guerra estava soterrado pela papelada jurídica onde buscava solução para os problemas em que seu cliente havia se enfiado. Gente com dinheiro suficiente para fazer merda primeiro e deixar que o dinheiro lide com as consequências depois. Mas o advogado já não conseguia manter o foco, sentia sua atenção sugada para longe, sob o assédio do sono e a cada piscar de olhos, ele a via. Nas brumas do estado de quase sono surgia a figura feminina, sinuosa em seu vestido negro. A sua Rainha nas Sombras.

Deu um leve tapa no próprio rosto para sair do devaneio. Apertou Alt + F4. Depois desligou o computador. Desabotoou mais um botão da camisa para aliviar a pressão no pescoço. A gravata já havia sido jogada de lado durante a segunda hora depois que seu expediente tinha terminado. Conferiu o relógio e viu que duas horas mais haviam passado. Bocejou. Estalou os dedos, estalou o pescoço e quando tentou se alongar um pouco mais estalou algum osso indeterminado que o deixou preocupado por alguns instantes.

Procurou pelo copo onde buscava combustível para tocar a noite e viu que nele só restava gelo e água. Everton lembrou desanimado que tinha bebido o restante da última garrafa de uísque guardada no escritório. Teve que se contentar em mastigar o gelo. Seus olhos estavam pesados e agora que ele tinha parado para descansar, sentiu eles arderem reclamando por uma boa noite de sono.

Everton olhou para o monitor desligado diante dele. Tentou discernir a própria imagem naquele espelho negro, mas não conseguiu ver nada além do vulto que o encarava de volta. Um calafrio correu pelo seu corpo. Pensou ter ouvido alguém o chamando num sussurro e depois sentiu um toque macio e gelado em sua nuca. Mas não havia mais ninguém.

Era o bastante.

— Hoje eu não vou mais resolver nada. — Olhou ao redor novamente, um pouco envergonhado por estar falando sozinho. — Foda-se! Não tem mais como fazer porra nenhuma, vou pra casa!

Catou suas coisas e foi embora do escritório. O sono lançava uma camada mágica ao redor, fazendo seus passos reverberarem através do silêncio dos corredores vazios, interrompido apenas quando ele se despediu do porteiro do prédio. A garagem pareceu um deserto de concreto cuja carne estava perfurada por colunas numeradas onde as sombras tentavam se esconder da luz. Puxou as chaves do bolso, elas tilintaram como pequenos sinos antes do assobio alto que ecoou naquela desolação ao mesmo tempo em que as portas do carro destravaram.

Tão tarde da noite o trânsito já não era grande coisa. Depois que ele chegasse na Avenida da Orla, não deveria demorar mais do que meia-hora para chegar em casa. Ele guiava o carro sem ter noção completa se estava indo rápido demais ou devagar demais. A ameaça do sono sustentava um equilíbrio tênue no qual Everton mantinha um estado de alerta apenas o suficiente para permanecer acordado. Ele só sabia que se deixasse o corpo agir instintivamente, acabaria chegando em casa.

Havia alguma agitação na Orla. Os hotéis cuspiam turistas que se agrupavam nos bares e restaurantes como pequenos formigueiros agitados pela música da noite de Nova Babel. O final do ano estava se aproximando e a cidade sempre ganhava fôlego novo nessa época.  Havia muitas luzes também, placas luminosas e semáforos, ofuscavam os sentidos de Everton com cores cintilando diante do seu quase torpor. Aquilo o deixou enjoado.

Abriu a janela para buscar conforto na maresia. Sentiu alívio quando a brisa salgada preencheu seus pulmões. Daquela distância, Everton não sabia dizer se ouvia o som das ondas ou se era sua imaginação. Foi quando o calafrio voltou. E a voz feminina que o chamava, antes num sussurro até então ignorado pelos sentidos embotados, surgiu audível como se fosse dita por alguém que estivesse sentada no banco ao lado.

— Estou te esperando.

No escuro da sua mente ele ouviu sinos tilintando distantes. Era um som familiar. O chacoalhar das chaves em sua mão o tirou do transe e Everton descobriu que estava diante da porta do próprio apartamento. Assustado, ele olhou em volta procurando por alguém que tivesse o visto naquela situação embaraçosa causada pelo sonambulismo.

Suspirou. — Eu preciso mesmo de férias.

CONTINUA

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Saudações joviais, 3d6 leitores!

Então começamos mais uma viagem, desta vez numa nova série! Em SOMBRAS DO NADA conheceremos personagens que estarão em situações insólitas demais para a própria saúde... Ou sanidade!

Espero que este primeiro ato atice a curiosidade para aqueles que toparem a experiência de leitura, para que descubramos juntos o desenrolar da noite de Everton Guerra!

Eu poderia estar roubando, poderia estar matando, mas estou pedindo para aqueles que tiverem gostado do texto deixarem comentários contando o que acharam da história e compartilharem com seus contatos que se interessam por ficção fantástica! Se você não gostou e quiser comentar também não faz mal, feedback é bom para eu aperfeiçoar o material vindouro.

No mais, tomara que eu conte novamente com sua atenção na próxima sexta-feira, com a continuação de "A Rainha no Escuro"!

Bons ventos.

MWXS

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quinta-feira, 29 de outubro de 2020

GIGANTES OU MOINHOS DE VENTO? NO APOIA.SE!

Saudações joviais, 3d6 leitores!

Essa era uma ideia que eu namorava tem é chão... Então finalmente reuni coragem para abrir um projeto de financiamento coletivo recorrente para o blog afim de buscar apoio de leitores e seguirmos nessa jornada por entre os mundos e personagens peculiares que conhecemos aqui no blog.

Para aqueles interessados em considerar dar esse tapinha nas costas e esse troco para contribuir pro desenvolvimento do blog, só clicar aqui e conhecer a página da campanha no Apoia.se!

No mais é isso. A sorte está lançada, que os dados sejam gentis e que as Musas nos favoreçam! Quem quiser fazer sugestões ou críticas, deixem comentários aqui no post.

Desde já agradeço aos que estão lendo estas linhas e lerão as vindouras.

Bons ventos.

MWXS

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sexta-feira, 17 de julho de 2020

CARONTE: BOTECO DOS MORTOS (ATO ÚNICO)


Escrito por
MIKE WEVANNE

Dedicado a
GEORGE ANDREW ROMERO
In memorian

O homem batia com os pulsos no portão metálico do bar, ignorando que o lugar estava fechado. Verdade seja dita, todos os lugares estavam fechados desde que o Dia do Julgamento aconteceu. Não aquele das máquinas dando o troco, mas aquele da ladainha, “sem espaço no Inferno, os mortos caminharão sobre a Terra” coisa e tal. Em todo caso depois da desgraça toda, portões trancados não significavam apenas a tentativa de impedir que um lugar fosse invadido, mas também apontavam que o tal lugar ainda não havia sido invadido mesmo! E o mais relevante a ser considerado: que ele guardava alguma coisa, potencialmente de valor.

Obviamente dar pancadas insistentes e arrebentar as mãos esperando que a carne vença o metal era uma atitude estúpida… Não que aquele homem tivesse outra opção, afinal ele era um desmorto e o bom senso já não fazia parte do seu repertório intelectual para que ele pudesse avaliar a própria burrice. De qualquer forma o impasse entre o cadáver ambulante e o portão foi resolvido quando Michelle atravessou a cabeça do desmorto com um facão.

Wagner veio logo atrás, apanhou o corta-vergalhão da mochila e arrebentou o cadeado. Michelle empurrou o portão rolante para cima e a dupla pulou para dentro do bar logo em seguida.

— O que diabo ele queria? Aqui dentro não tem ninguém! — Michelle sussurrou enquanto assobiava baixo procurando por algum animal que pudesse ter chamado a atenção do ambulante do lado de fora. Nada.

— Pau no cu dele. Eu só quero descansar de forma decente por algumas horas. — Paciência não era o forte de Wagner, mas as horas que os dois estavam perambulando não tinham feito bem para os nervos de ninguém. — Michelle, tu disse que o bicho morto tava tentando pegar alguém aqui dentro, o cadeado tava trancado do lado de fora, merda!

— Eu pensei que a gente poderia ajudar alguém, como eu ía saber que o monstro tava zoado e cismado com o portão?

Wagner olhou desconfiado, Michelle sabia o que aquele olhar de reprovação significava. Ela não tinha dúvidas de que ele reconhecia suas habilidades, o que não significava que aprovasse as escolhas dela quando inventava de bancar a heroína. Ambos já tinham visto coisas demais para saber que era uma linha de ação perigosa. Não apenas porque os desmortos poderiam apanhá-los num descuido, mas também porque nem sempre eles podiam confiar naqueles que tentavam salvar. Foram roubados duas vezes e em outras duas tentaram assaltá-los.

O ser humano nunca foi muito eficaz em estabelecer prioridades, nem antes e nem depois do fim do mundo.

Os dois ficaram ali por alguns minutos sem saber o que fazer. O protesto de Wagner era justo, ambos estavam cansados. Então Michelle deu de ombros, foi para detrás do balcão e pegou uma garrafa de cachaça.

— Bom, pelo menos vamos repor nosso estoque de água. — Ela puxou dois copos de dose e os encheu até transbordarem. — O quê? Não precisa fazer careta de novo, ali no canto tem dois garrafões de água mineral! Isso daqui é só pra molhar a goela!

— Aí sim, jogadora! — Wagner tirou a expressão emburrada do rosto e os dois brindaram.

Antes de beber, Michelle ergueu o copo numa pose quase cerimonial, falando com alguém invisível — Ave, Imperador! Nós que vamos morrer te saudamos! — então entornou a dose de pinga.

Três shots depois talvez eles não estivessem mais com os reflexos tinindo, mas estavam com o ânimo restaurado, com os cantis cheios de água e com alguns pacotes de salgadinhos que poderiam ser úteis para enganar a fome ou numa troca com outros sobreviventes.

Quando saíram do bar eles esbarraram novamente com o desmorto inerte jogado no chão. A cabeça partida em duas. Antes de irem embora Michelle riscou a parede com um triângulo virado para baixo ao lado do portão. Chamativo o suficiente para que eles vissem e lembrassem da água que deixaram escondida caso passassem por lá novamente, discreto o suficiente para não chamar a atenção de outras pessoas.

Enquanto Michelle fechava o portão, fazendo questão de deixar o cadeado arrebentado bem à vista para mostrar que o lugar havia sido pilhado, por curiosidade Wagner se ocupou em vasculhar os bolsos do cadáver no chão. Três cartelas de antiácidos e uma carteira cheia de coisas que não tinham mais valor, como dinheiro, cartão de crédito e um cartão de visitas. — “Alcoólicos Anônimos” — Ele leu e mostrou para Michelle, que já estava pronta para ir embora.

— Lembra o que ouvimos naquela rádio outro dia? Sobre as aglomerações de monstros nos shoppings, como se eles estivessem indo para lá seguindo algum tipo de instinto idiota de quando eram vivos? — Ela tirou do bolso um pequeno cantil metálico e molhou os lábios com a cachaça que tinha o reabastecido. Ofereceu a bebida para Wagner, que ficou em silêncio por uns segundos, refletindo sobre aquele papo todo. Era algo que ele detestava fazer.

— Não… Para mim já deu. — Acenou, incomodado com o sarcasmo da amiga, e guardou os comprimidos na mochila. — Pau no cu dele! E não faz mais a gente perder tempo, merda! — Então os dois pegaram seu rumo para qualquer lugar.

FIM.

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Saudações joviais!

Ontem (16 de julho) foi aniversário do falecimento de George Romero, o pai dos zumbis modernos como os vemos na maioria das obras da cultura pop atuais, e como entusiasta do gênero que sou, achei que seria uma boa oportunidade para escrever um conto em homenagem (e desde já pedindo desculpas pelo conto no meio dos capítulos de A dança dessa noite, mas espero que seja uma causa justa).

Sexta-feira que vem seguimos com programação normal... E para aqueles que chegarem até aqui, fica o pedido de sempre: comentem suas impressões sobre o texto e compartilhem com os amigos, se o material merecer, claro.

Bons ventos.

MWXS

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sexta-feira, 5 de junho de 2020

O BLUES DE NOVA BABEL: A DANÇA DESSA NOITE (ATO 1)



Escrito por
MIKE WEVANNE

1.

O quarto escuro abrigava dois vultos debruçados um sobre um outro. A madeira da cama rangia, mas suportava toda aquela tensão acumulada entre as duas pessoas. Depois que ambos passaram por maus bocados no dia anterior, encontraram um ao outro feito um náufrago encontra um bote salva vidas.

Já haviam perdido a noção do tempo que havia passado. Seus corpos suados enfrentando um calor intenso demais para o ventilador que soprava incerto de estar cumprindo seu dever. Jack usou os dentes para prender um murmúrio e em vez disso o que escapou foi um som gutural. O abdome de Susane estremeceu, ela o prendeu entre as pernas e o envolveu com os braços. Seus dedos cravaram nas costas de Jack, os dentes dele cravaram no pescoço dela, e a dor de ambos se embaralhou com o prazer.

Ele a abraçou forte também. Dois corpos se misturando, uma massa de carne espiralada onde o casal confundia tanto a pele suada quanto a palpitação do coração um do outro. Os lábios não descansavam, mesmo quando ocasionalmente buscavam ar. Susane e Jack se afogavam um no outro.

E gozaram.
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Jack acordou ainda enrolado no corpo de Susane. Na penumbra do quarto ele escorregou para fora da cama e tateou o chão até encontrar a camisinha que tinha jogado fora. Usada e amarrada num nó. Depois achou o controle da TV e ligou num canal qualquer para conseguir alguma iluminação. No meio do caminho até o banheiro apanhou a cueca e o maço de cigarros.

Quando voltou para o quarto, que também era sala e cozinha do quitinete em que morava, sentou na única poltrona que tinha, puxou a garrafa de cachaça que estava próxima. Divagou sobre a noite agourenta que havia tido antes de encontrar Susane. Virou uma dose da pinga e reparou que a TV exibia um filme erótico. Jack não sabia que ainda passavam aqueles filmes nas madrugadas entre os sábados e os domingos. Algo reacendeu dentro dele. Sentiu a pressão aumentar dentro da cueca. Apagou o cigarro, tomou outro gole de cachaça e voltou para a cama.
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Susane não estava dormindo. Aquele calor desgraçado a mantinha acordada e ela estava pensando sobre os problemas do dia anterior. No escuro sentiu um movimento ao lado dela e o corpo de Jack escapuliu do abraço em que os dois estavam embolados. Pouco depois a TV foi ligada e ajudou na iluminação. Susane o viu vestindo a cueca e indo até o banheiro.

Aquela não era a noite mais confortável que tinha tido, mas a companhia estava valendo o aperreio. Principalmente pela fuga que representava. Os dois não poderiam ter se encontrado numa noite mais propícia: buscavam um pouco de loucura para esquecer do bom senso que os obrigava a lidar com os problemas que estavam enfrentando. Terminaram encontrando um ou outro. Então veio o jogo em que se envolveram: de olhares, de palavras, de sorrisos, de intenção… Cujo desfecho os levou até aquele quarto calorento.

Desconfortável, mas a companhia valia.

Quando Susane reparou no que estava passando na TV, viu um homem e uma mulher transando próximo a uma grande fornalha de fábrica. Os dois estavam suados como ela mesma estava. Excitados como ela mesma estava.

Um calafrio correu pela sua pele quando sentiu o corpo de Jack se encaixar no seu. O abraço dele não era a única coisa que estava firme. Então se perderam novamente na loucura um do outro.

Porque a manhã os esperava com todos os problemas. Mas aquela noite pertencia somente a eles.


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Saudações joviais!

Nessa nova história vamos explorar um novo mundo e uma nova temática... Numa pincelada noir, vamos explorar alguns personagens na cidade de Nova Babel. Espero que essa espiada faça valer a viagem!

Sem mais, quem chegar até aqui, peço que deixe um comentário com sua experiência de leitura: impressões, sugestões e críticas. Agradeço muito a força para que eu siga escrevendo e melhorando o conteúdo no blog! E se o texto merecer, compartilhe com os amigos nas redes sociais!

Próxima sexta-feira veremos o segundo ato de "A dança dessa noite"!

Bons ventos.

MWXS
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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Caronte: O Assunto Inacabado dos Boones (Ato 1)


Escrito por
MIKE WEVANNE

1.

Lucas e Karina Boones estavam sentados em sofás opostos de sua sala de estar. Ficaram ali durante toda aquela manhã de domingo, encarando um ao outro e quando se sentiam desconfortáveis, encaravam as paredes em volta. Não conversavam, mas o silêncio não era um problema, o aparelho de som estava tocando “Long Tall Sally” num volume alto demais para que pudessem se falar. Mas não faria diferença, porque eles não queriam.

Karina tentava se mexer o mínimo possível, para não mostrar o quanto suas mãos estavam tremendo. Assim que Lucas percebesse o quanto estava aflita, ela desabaria no choro. Lucas estava lidando melhor com a situação, na aparente tranquilidade que tentava dizer: — Olhe para mim, Karina, eu sou um homem que tem tudo sob controle! — Estava suando um pouco. Usou um lenço para limpar a testa. Era o calor ou era o esforço para esconder o nervosismo escapando pelos poros? E o maldito Little Richard gritando na sala não estava ajudando!

A casa dos Boones era um lugar respeitável. Condomínio fechado. Sua sala mostrava as comodidades de uma família bem constituída da classe média. Sofás confortáveis, uma mesa de centro moderna feita de madeira e vidro. TV grande, som surround. Ao redor, cortinas, quadros velhos, porcelana fria. Muitas fotografias mostrando Lucas e Karina junto de amigos e familiares, durante viagens e confraternizações.

Eram casados desde quando tinham vinte e pouco. Antes disso, já namoravam desde os meados da adolescência. Um casal apaixonado e feliz. “Destinados um ao outro” alguns diziam. Muitos sorrisos. Tinham uma energia cativante. Todos queriam estar perto dos Boones.

Com a passagem dos anos, aqueles retratos haviam se tornado janelas para a vida de dois desconhecidos. Um casal apaixonado e feliz. Definitivamente, não eram as mesmas pessoas que estavam naquela sala. Sentadas, mudas, insondáveis uma para a outra.

Não tinham mais nada para dizer, só podiam esperar. Naquele momento desenganado, apenas dois pares de olhos perdidos, de duas pessoas tentando lidar com uma situação sem jeito. Ela buscava conforto e ele confortá-la. Ambos estavam fadados ao fracasso e ainda nem estamos no final da história. Então a música terminou.

O barulho das pancadas violentas na porta e nas janelas puderam ser ouvidas novamente. Pessoas gritando do lado de fora. Nada que fizesse sentido. Karina encolheu no sofá, esperando a próxima música começar e abafar o caos vindo da rua e voltar para a sua falsa sensação de segurança dada pela ignorância dos sentidos.

Quando Little Richard começou “Tutti Frutti” era tarde demais. Não que estivesse fazendo qualquer diferença até então, ou fosse mudar a sucessão dos acontecimentos que seguiriam, mas Karina tinha essa esperança morta dentro de si e se agarrava a ela. Lucas, por outro lado, sabia que a morte era a única certeza daquela situação. Ela queria manter a ilusão enquanto ele só queria que tudo acabasse de uma vez.

A porta e as janelas se despedaçaram sob a força dos estranhos que invadiram a respeitosa casa dos Boones. Karina correu para o lado oposto e Lucas foi atrás. Perseguidos por uma multidão ensanguentada. Os invasores tinham muitos ferimentos. Cortes, mordidas, lacerações, pedaços dos corpos faltando. Deviam estar mortos, mas as bocas escancaradas e a disposição com que botavam a sala de Lucas e Karina Boones abaixo deixava claro o absurdo do contrário. Sob o peculiar infortúnio, aquela bela sala tinha perdido totalmente o charme. Difícil manter a harmonia da mobília quando tudo está sendo revirado e sujo de sangue por desmortos cambaleantes tentando matar os donos do lugar. Até o Little Richard se calou.


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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Caronte: Sessão Pipoca dos Mortos (Ato 1)


Escrito por
MIKE WEVANNE

Dedicado a
PBG e AAV

1.

— Porra, Prisco, deixa de ser chato! — Andréa ficava inconformada quando Prisco cismava com seu namorado. — Te preocupa com a Ananda e deixa meu namorado em paz!

— Mas é a realidade, ué. Pode acontecer! — Ele deu de ombros contra o inconformismo da amiga. A cômoda postura de quem está com a razão.

Michelle, que assistia a conversa dos dois, só queria que aquela discussão acabasse. — Poder pode, mas não ajuda em nada a situação da nossa amiga, né? — Ela era a única solteira do trio e lembrar mesmo das partes complicadas de um relacionamento era algo que levava seus pensamentos para outro lugar. “Maldito ascendente em peixes!” ela pensava enquanto esperava que os dois terminassem a desavença.

— Bom, isso é. — Prisco deu uma risada cínica. A cômoda atitude de quem recua mas mantém o que tinha dito.

O que apenas deixou Andréa mais irritada ainda. Ela já abria a boca para replicar quando Michelle interrompeu novamente, mudando o assunto e o rumo das coisas.

— Gente, vamos escolher o filme ou não? É sempre isso. A semana inteira para combinarmos e acabamos deixando para se decidir em cima da hora! — Ela zapeava no aplicativo conferindo o acervo de filmes disponíveis.

— Eu já disse o que quero ver. — Prisco levantou do sofá e foi em direção à cozinha. — Decidam aí enquanto eu faço pipoca.

— Acho que podemos ver esse. Fiquei curiosa. — Ver Andréa concordando com Prisco sobre o filme deixou Michelle mais tranquila.

— Pronto! Estamos progredindo! — Michelle releu a sinopse. Um assassino, uma casa mal assombrada, possessão demoníaca. Perfeito. — Vai ser esse, então!

Tudo estava preparado para que enfim aproveitassem a noite de sexta-feira com um bom filme de terror. Precisamente, uma noite de sexta-feira 13 de lua cheia! Michelle se animava com o simbolismo astrológico. Andréa gostava de reunir os amigos. Prisco se divertia pregando sustos nas amigas. O som de milho estourando vinha da cozinha.

— Gente, as vezes fico besta quando percebo o quanto estou desligada das notícias! — Michelle achava engraçado quando Andréa metia assuntos aleatórios numa conversa. — É sério! Tudo agora é streaming, séries, filmes… Eu não vejo mais jornais, acredita?

— Eu acredito! Também faço a mesma coisa. Só essa semana eu fiquei sabendo dessa nova gripe fodida que está tendo por aí. É só mais um motivo pr’eu ficar quiesta e não sair de casa nem pelo caralho!

— Mas tu vive no mundo da lua de qualquer jeito, né, mana?! — Andréa riu.

Michelle concordou e riu também. “Maldito ascendente em peixes!”

A pipoca chegou. Pelo cheiro e pela cara, estava ótima. — Senhoras, modéstia que se foda, minha pipoca tá uma obra prima! — Prisco distribuiu as tigelas, encheu os copos com refrigerante, desligou a luz da sala, assumiu o comando do aplicativo de streaming.

Deu o play.

A energia elétrica caiu. Tudo ficou escuro. Eles ouviam sirenes distantes, fogos estouravam em algum lugar do bairro. Seriam tiros? Pessoas estavam discutindo feio no andar de baixo. Gritos. O que estava acontecendo?


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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Apresentação: first things first!


Saudações joviais!

Para iniciar as publicações nesse novo blog (e para quem por ventura não estiver vindo de Os Contos de Óculos) cabe uma breve apresentação de quem eu sou e que tipo de material vou publicar aqui, então let's vamos!

Me chamo Michael "Mike" Wevanne, sou de Fortaleza e atualmente moro em Belém do Pará. Há muito leio histórias em quadrinhos e jogo RPGs, no meio do caminho até os dias de hoje adquiri o hábito da leitura de ficção e um cadinho mais adiante, da escrita, principalmente de ficção fantástica.

E será esse tipo de materiais que serão publicados aqui: minhas pretensões no campo da literatura de ficção, e ocasionalmente algumas investidas na área do desenho.

Sou especialmente atraído por histórias de terror e pelo estilo noir. Na literatura meus autores preferidos são Edgar Alan Poe, Robert E. Howard, F. Scott Fitzgerald, Dashiell Hammett, etc. Nas histórias em quadrinhos, gosto dos trabalhos de Warren EllisJ. Michael Straczynski, Allan Moore e Neil Gaiman.

Inicialmente irei postar algumas republicações, aproveitando para atualizar e dar uma segunda demão providencial em alguns textos velhos, ganhando tempo para preparar material inédito.

No mais é isso. Sejam bem vindos e desde já agradeço a atenção e o tempo dispendidos por estas paragens. Espero que essa minha jornada incerta seja interessante para acompanhar. Não esqueçam de deixar comentários com críticas e sugestões para eu poder sondar onde estou acertando ou errando, e se o conteúdo valer, compartilhem com os amigos!

Bons ventos.

MWXS

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