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sexta-feira, 14 de julho de 2023

CARONTE (ATO ÚNICO)

Escrito por
MIKE WEVANNE

O chumbo voou através do corredor do hospital enquanto a horda cambaleante avançava na direção de Álvaro… A multidão tropeçava por cima dos cadáveres caídos, das macas e cadeiras espalhadas pelo caminho, tudo que havia sido deixado para trás durante o início do fim de tudo. As manchas de sangue que pintavam as paredes e o chão de vermelho e negro já estavam ali antes de Álvaro ter despertado a atenção dos desmortos.

Cada metro a menos da distância entre o mercenário e os zumbis significava que os momentos finais da vida de Álvaro Ramires ficavam mais próximos, porém ele estava ali para lutar até o último segundo: ganhando tempo para a fuga da Doutora Naomi e pro resto da Equipe Caronte, uma punhado de pescoços duros que não tinham mais nada para perder, ainda assim ajudavam da melhor forma que sabiam: localizar e destruir!

O fuzil cuspia sua munição, decapitando e desmembrando. A carne daquelas pessoas que haviam esquecido de morrer era dilacerada pelo chumbo, mas pouco sangue ainda jorrava pelos buracos feitos em seus corpos, apodrecidos há dias, seu sangue adquirira uma viscosidade repugnante. Eles não sentiam mais medo nem possuiam qualquer sinal de consciência, a única coisa que lhes restou era a fome. Inexplicável. Eram menos que animais, tomavam seu caminho para fora de qualquer classificação biológica que pudesse explicar sua existência.

As rajadas da arma de fogo os retardavam, mas a turba seguia, sem hesitação, estendiam seus braços decrépitos e abriam as bocarras enegrecidas pela gangrena generalizada, em busca de carne. A carne de Álvaro!

Subitamente o barulho ensurdecedor dos cartuchos explodindo deu lugar a uma sequência curta de pequenos cliques. Sem munição.

O jogo estava acabado.

Álvaro não tinha muito tempo para pensar a respeito, ele aprendeu a agir sob pressão e reflexo. Pegou sua faca e a arremessou no último desmorto que teve a oportunidade de abater. A lâmina cravou em cheio na testa do alvo, que caiu como se alguém tivesse lhe apertado um botão de desligar, caiu como se finalmente tivesse percebido seu destino manifesto:

— ESTÁ MORTO, CARALHO! — Em seguida Álvaro olhou em volta e tomou a primeira porta que viu antes de quase ser apanhado pelas mãos e dentes dos lazarentos. Tudo ficou escuro. Ainda sob ato reflexo tateou até a tranca da porta enquanto usava o próprio corpo como escora.

Pelo cheiro e pelo espaço reduzido em que acabou confinado, deduziu que estava numa dispensa de materiais de limpeza. Estava num beco sem saída.

“A barca do ceifeiro finalmente o levou pro outro lado do rio”, era como diziam em seu grupo sobre os membros que morriam em missão. A Equipe Caronte era formada por homens e mulheres que iam pelo rio do Inferno e sabiam que um dia a viagem chegaria ao final.

Na escuridão, Álvaro tentou se acalmar, controlar a respiração, reduzir a adrenalina e pensar. Sentou, suspirou profundamente e esperou… Não tinha mais nada para fazer além de esperar, não haveria resgate para ele. A engenheira química que foram resgatar já estava salva e sua missão estava cumprida. Ao custo de sua própria vida? Álvaro pensou que era uma troca justa. Considerando que os líderes da comunidade estivessem certos em relação à doutora.

Entre o vazio escuro daquele lugar e a algazarra insana do lado de fora, a iminência da porta desabar era uma preocupação. Álvaro começou a perceber que não era tão durão quanto imaginava, a ameaça da morte já assediava os limites dos seus nervos. A situação se tornou uma questão de escolha: morrer por inanição preso naquele buraco ou se entregar às criaturas e ser transformado em mais um dos que andavam sem estar vivos.

A segunda opção era algo que não aceitaria. — Nunca! — Tateou os objetos em volta, pensou em cometer suicídio bebendo o material de limpeza, mas isso poderia condená-lo a uma longa agonia antes que a morte chegasse… Se realmente chegasse.

Então Álvaro praguejou que talvez tivesse se livrado cedo demais de sua faca.

FIM

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sexta-feira, 17 de julho de 2020

CARONTE: BOTECO DOS MORTOS (ATO ÚNICO)


Escrito por
MIKE WEVANNE

Dedicado a
GEORGE ANDREW ROMERO
In memorian

O homem batia com os pulsos no portão metálico do bar, ignorando que o lugar estava fechado. Verdade seja dita, todos os lugares estavam fechados desde que o Dia do Julgamento aconteceu. Não aquele das máquinas dando o troco, mas aquele da ladainha, “sem espaço no Inferno, os mortos caminharão sobre a Terra” coisa e tal. Em todo caso depois da desgraça toda, portões trancados não significavam apenas a tentativa de impedir que um lugar fosse invadido, mas também apontavam que o tal lugar ainda não havia sido invadido mesmo! E o mais relevante a ser considerado: que ele guardava alguma coisa, potencialmente de valor.

Obviamente dar pancadas insistentes e arrebentar as mãos esperando que a carne vença o metal era uma atitude estúpida… Não que aquele homem tivesse outra opção, afinal ele era um desmorto e o bom senso já não fazia parte do seu repertório intelectual para que ele pudesse avaliar a própria burrice. De qualquer forma o impasse entre o cadáver ambulante e o portão foi resolvido quando Michelle atravessou a cabeça do desmorto com um facão.

Wagner veio logo atrás, apanhou o corta-vergalhão da mochila e arrebentou o cadeado. Michelle empurrou o portão rolante para cima e a dupla pulou para dentro do bar logo em seguida.

— O que diabo ele queria? Aqui dentro não tem ninguém! — Michelle sussurrou enquanto assobiava baixo procurando por algum animal que pudesse ter chamado a atenção do ambulante do lado de fora. Nada.

— Pau no cu dele. Eu só quero descansar de forma decente por algumas horas. — Paciência não era o forte de Wagner, mas as horas que os dois estavam perambulando não tinham feito bem para os nervos de ninguém. — Michelle, tu disse que o bicho morto tava tentando pegar alguém aqui dentro, o cadeado tava trancado do lado de fora, merda!

— Eu pensei que a gente poderia ajudar alguém, como eu ía saber que o monstro tava zoado e cismado com o portão?

Wagner olhou desconfiado, Michelle sabia o que aquele olhar de reprovação significava. Ela não tinha dúvidas de que ele reconhecia suas habilidades, o que não significava que aprovasse as escolhas dela quando inventava de bancar a heroína. Ambos já tinham visto coisas demais para saber que era uma linha de ação perigosa. Não apenas porque os desmortos poderiam apanhá-los num descuido, mas também porque nem sempre eles podiam confiar naqueles que tentavam salvar. Foram roubados duas vezes e em outras duas tentaram assaltá-los.

O ser humano nunca foi muito eficaz em estabelecer prioridades, nem antes e nem depois do fim do mundo.

Os dois ficaram ali por alguns minutos sem saber o que fazer. O protesto de Wagner era justo, ambos estavam cansados. Então Michelle deu de ombros, foi para detrás do balcão e pegou uma garrafa de cachaça.

— Bom, pelo menos vamos repor nosso estoque de água. — Ela puxou dois copos de dose e os encheu até transbordarem. — O quê? Não precisa fazer careta de novo, ali no canto tem dois garrafões de água mineral! Isso daqui é só pra molhar a goela!

— Aí sim, jogadora! — Wagner tirou a expressão emburrada do rosto e os dois brindaram.

Antes de beber, Michelle ergueu o copo numa pose quase cerimonial, falando com alguém invisível — Ave, Imperador! Nós que vamos morrer te saudamos! — então entornou a dose de pinga.

Três shots depois talvez eles não estivessem mais com os reflexos tinindo, mas estavam com o ânimo restaurado, com os cantis cheios de água e com alguns pacotes de salgadinhos que poderiam ser úteis para enganar a fome ou numa troca com outros sobreviventes.

Quando saíram do bar eles esbarraram novamente com o desmorto inerte jogado no chão. A cabeça partida em duas. Antes de irem embora Michelle riscou a parede com um triângulo virado para baixo ao lado do portão. Chamativo o suficiente para que eles vissem e lembrassem da água que deixaram escondida caso passassem por lá novamente, discreto o suficiente para não chamar a atenção de outras pessoas.

Enquanto Michelle fechava o portão, fazendo questão de deixar o cadeado arrebentado bem à vista para mostrar que o lugar havia sido pilhado, por curiosidade Wagner se ocupou em vasculhar os bolsos do cadáver no chão. Três cartelas de antiácidos e uma carteira cheia de coisas que não tinham mais valor, como dinheiro, cartão de crédito e um cartão de visitas. — “Alcoólicos Anônimos” — Ele leu e mostrou para Michelle, que já estava pronta para ir embora.

— Lembra o que ouvimos naquela rádio outro dia? Sobre as aglomerações de monstros nos shoppings, como se eles estivessem indo para lá seguindo algum tipo de instinto idiota de quando eram vivos? — Ela tirou do bolso um pequeno cantil metálico e molhou os lábios com a cachaça que tinha o reabastecido. Ofereceu a bebida para Wagner, que ficou em silêncio por uns segundos, refletindo sobre aquele papo todo. Era algo que ele detestava fazer.

— Não… Para mim já deu. — Acenou, incomodado com o sarcasmo da amiga, e guardou os comprimidos na mochila. — Pau no cu dele! E não faz mais a gente perder tempo, merda! — Então os dois pegaram seu rumo para qualquer lugar.

FIM.

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Saudações joviais!

Ontem (16 de julho) foi aniversário do falecimento de George Romero, o pai dos zumbis modernos como os vemos na maioria das obras da cultura pop atuais, e como entusiasta do gênero que sou, achei que seria uma boa oportunidade para escrever um conto em homenagem (e desde já pedindo desculpas pelo conto no meio dos capítulos de A dança dessa noite, mas espero que seja uma causa justa).

Sexta-feira que vem seguimos com programação normal... E para aqueles que chegarem até aqui, fica o pedido de sempre: comentem suas impressões sobre o texto e compartilhem com os amigos, se o material merecer, claro.

Bons ventos.

MWXS

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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Caronte: O Assunto Inacabado dos Boones (Ato 4)


Escrito por
MIKE WEVANNE

Obs: leia os capítulos anteriores seguindo os links no final do post.

4.

Karina recuou de volta para a calçada. Um desmorto a agarrou pelo pulso e ela o atingiu com um soco certeiro. Seu punho não tinha muita destreza, mas o tempo na academia o tornou poderoso o suficiente para fazer um nariz explodir. As unhas do monstro a arranharam mas o golpe fez com que ele largasse a pegada.

Com os olhos de Karina buscaram ajuda, do outro lado da rua. O vizinho escondido entre os carros apenas olhou de volta. O maldito covarde aproveitou que ela havia atraído atenção suficiente para que ele mesmo escapasse dali e foi embora.

Enquanto dava passos incertos de volta para casa, ainda sem acreditar na atitude do desgraçado que lhe arrancou o fio de esperança, Karina olhou para o amontoado de desmortos na calçada, queria desesperadamente que a carcaça sendo dilacerada por eles não fosse Lucas. Os monstros já haviam descoberto sua presença e iam na direção de Karina, abandonando o corpo destroçado. Ela se esforçou mas não conseguiu ver o suficiente para identificá-lo.

Quando Karina ficou diante da porta e das janelas destruídas da própria residência, lembrou do terror que havia passado lá dentro. A repulsa tomou suas entranhas e se pudesse ela tinha parado para vomitar. Mas não podia parar e engoliu o que estava vindo. Correu para o portão da garagem, que estava aberto. Lembrou do carro. Empurrou um dos seus perseguidores que estava no caminho, o monstro perdeu o equilíbrio e foi pro chão, ela conseguiu alcançar o veículo. Puxou a maçaneta rezando para que estivesse destrancada.

Um dos desmortos a agarrou enquanto Karina fechava a porta e seus cabelos ficaram presos. Ela só conseguia gritar. Por socorro. Por Lucas. Pelo vizinho que havia a abandonado. E chorar. Segurou a raiz dos próprios cabelos, cerrou os dentes e puxou. Os desmortos gritavam do lado de fora, ela gritou mais ainda. As pancadas das mãos e das cabeças atingindo o vidro das janelas do carro eram enlouquecedores. O medo de que o vidro cedesse estava a destruindo por dentro. Soluçava aos prantos, ela queria que tudo aquilo não fosse verdade. Não podia ser real. Não podia! Desmaiou.

Karina acordou na penumbra da noite, seu corpo tremeu com o calafrio trazido pela lembrança do sonho ruim que teve. Uma resolução mentirosa que não durou muito depois dos seus sentidos começarem a entregar a realidade em volta. Ela estava no carro, ainda assediado sob as pancadas dos desmortos que queriam invadir o veículo e se empanturrar com a carne de Karina. Resignada, se ajustou sobre o assento do motorista, limpou as lágrimas do rosto e levou a mão até a parte de baixo do banco, mas de lá só conseguiu arrancar um pedaço de fita adesiva. A chave reserva do carro não estava no lugar onde deveria estar. Cerrou os dedos em volta do volante e foi tomada mais uma vez pela desesperança, então pensou que aquilo poderia significar que Lucas tinha pego a chave! Que Lucas estava vivo!

Como ela queria que ele estivesse ali! De repente o amor de Karina por Lucas explodiu em seu peito, retumbava tão intenso quanto a esperança dele surgir para resgatá-la! Seu próprio príncipe salvador… Ela ainda tinha humor suficiente para rir da bobagem da imagem que a ideia tinha formado. Viu o próprio punho sujo de sangue e reparou a ardência na cabeça, passou os dedos entre os cabelos e sentiu a ferida úmida deixada pelos vários fios que foram arrancados. Fechou os olhos e se debruçou sobre o volante.

Lucas fora seu porto seguro desde sempre. Mesmo durante aqueles meses de crise. Karina também sabia que era um um farol para Lucas. Depois de um dia ruim, mesmo que só houvesse lhes sobrado o silêncio, a morada do espírito de um era o coração do outro. Um lar vazio ainda é um lar para se buscar santuário. Adormeceu.

Karina Boones acordou presa dentro do seu carro, sitiada por aqueles cadáveres ambulantes que gruniam, arranhavam e golpeavam as janelas com os punhos e com as próprias cabeças ensanguentados. A claridade da manhã do lado de fora da garagem já fazia os vultos a sua volta tomarem forma. Ela os encarava, tentando encontrar qualquer humanidade que houvesse restado naquelas criaturas. Não conseguiu, mas na tentativa reconheceu alguns vizinhos. Pela compleição física, pelo tamanho do cabelo… Pela pequena mancha na bochecha, logo abaixo do olho esquerdo. Seus olhos marejaram novamente e os lábios tremeram. Lucas estava entre eles. Lucas era um dos desmortos. Forçando o próprio rosto contra o vidro, com a garganta esfolada, os olhos vidrados e avermelhados, enlouquecidos expressando uma raiva sem qualquer propósito.

As lágrimas riscaram o rosto cansado de Karina. Ela lembrou de tudo pelo que havia passado nas últimas horas. Todas as ações, todos os pensamentos, todas as esperanças… Todas as lembranças. Então ela sorriu.

Diante da morte, lembrou do quanto havia pensado na vida.

Será que Lucas também havia tido a mesma epifania? — Eu te amo, Lucas. — ela disse encarando a criatura oca em que seu marido tinha sido transformado. Estava sozinha como nunca esteve. Enfrentava uma tempestade de emoções que devastou sua mente. Estava erigindo uma cena emocionante demais para aquele filme mudo e estático que seu cérebro tentava absorver. Não havia mais qualquer esperança na qual se agarrar. Apenas o refúgio do desengano dentro de si, e foi lá onde Karina Boones se perdeu.

FIM

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Saudações joviais!

É isso! Mais um conto finalizado, com a benção das Musas! Para aqueles que chegaram até aqui, só tenho agradecimentos! E se o texto merecer, peço para que deixem comentários contando sua experiência: impressões, sugestões, críticas... Todo feedback é útil para o conteúdo melhorar! Ainda mais, espero que os textos estejam valendo para serem compartilhados com os amigos, que tal?

No mais, como está indo nossa viagem através de um apocalipse zumbi? Querem ver mais desse mundo desolado e sem esperança? Ou estão afim de um novo mundo? Uma história noir? Uma aventura de fantasia?

Seja lá o que as Musas nos reservarem, nos encontraremos na próxima sexta-feira!

Bons ventos!

MWXS

Obs: abaixo seguem os links para os capítulos anteriores do conto. 
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sexta-feira, 15 de maio de 2020

Caronte: O Assunto Inacabado dos Boones (Ato 3)


Escrito por
MIKE WEVANNE

Obs: leia os capítulos anteriores através dos links no final do post.

3.

Karina Boones estava sozinha e com medo. As pernas desgovernadas tinham a levado até o banheiro e lá ela havia se trancado. A algazarra de punhos e unhas assediavam a porta e destruíam seus nervos. A solidão intensificava o pavor e o pavor a deixava à beira do desespero completo. Tentou passar pela pequena janela que servia de ventilação mas seus ombros não permitiram. Ela sabia que do outro lado havia alguns metros de queda até o chão, mas ela só queria sair dali. As primeiras lágrimas saíram.

— KARINA! — O grito do marido soou abafado através das paredes entre a distância que os separavam.

— Lucas, socorro! — Ela se apegou à esperança de ser tirada dali, sem se importar que a gravidade da situação tornava a possibilidade improvável.

As pancadas na porta cessaram. Os gritos ameaçadores começaram a se afastar. Conseguiu discernir que o barulho estava indo para a sala, no andar de baixo. Ouviu Lucas dizer alguma coisa. Distante no caos. Colou a orelha na porta. — Karina, sai daí! — A voz dele, presumia, também vinha da sala.

Ela colocou a mão na maçaneta e congelou. Karina queria sair dali, mas não por aquela porta. Suspirou, seu punho girou e ela deu uma espiada. Não havia ninguém no corredor. No final dele a porta do quarto do casal, que estava aberta.

— Foge, mulher, pelo amor de Deus! — Lucas estava mesmo na sala, junto de todos aqueles convidados inesperados. E indesejados. Aquelas pessoas ensanguentadas que tinham invadido sua casa o cercavam.

Karina correu até a porta no final do corredor. Não piscou nem olhou pros lados. Entrou no quarto e fechou a porta. Viu a cômoda fora do lugar e a empurrou para usar como escoro.

Depois sentou na cama e se permitiu ser tomada por um vazio de esquecimento e fuga. Não sabia o que fazer. Não sem Lucas. Ela tinha aceito a decisão dele sobre a tragédia do fim do mundo, mas quando viu aquela multidão terrível avançando sobre eles, mutiladas, sangrando, presas em corpos que não deveriam mais estar vivos, não conseguiu. O fim não podia ser daquela forma.

Será que Lucas tinha conseguido escapar? Ele faria qualquer coisa para ajudá-la. Quantos meses estavam sem se falar? Seis meses? Mais parecia um ano inteiro… A vida dos dois havia se tornado uma dor silenciosa, uma infelicidade à qual o casal se mantinha unido. Preso pelo medo de lidarem com o mundo sem ter um ao outro. O mesmo mundo que conquistaram durante a adolescência. O mundo que compreenderam na vida adulta. O mundo que os derrotou durante os poucos anos depois do casamento. Ela não sabia o que tinham perdido, mas sabia que tinham perdido algo. Começou como um silêncio incômodo que se tornou rotineiro e então uma traição destruiu tudo o que tinham construído. Karina e Lucas Boones não conseguiam enxergar nada além das ruínas da felicidade que tinham conquistado, então permaneciam um do lado do outro. E quando o mundo estava acabando numa praga de violência e morte, resolveram partir dele juntos.

Karina voltou para o momento, por um momento, e pensou que se Lucas tivesse escapado, com certeza ele não conseguiria vir por aquela porta. As coisas estavam bem feias lá fora. — Lá fora! — Ela correu até a janela e olhou pro quintal. Ninguém. Analisou as possibilidades. Usou os braços, se apoiou em alguns batentes, cotovelos arranhados e conseguiu chegar ao nível do solo. Estava em forma. A academia tinha se tornado um refúgio quando queria evitar a presença do marido.

Precisava achar Lucas. Atravessou a passagem lateral da casa espiando as janelas. Não via ninguém lá dentro, apenas móveis revirados. Chegou à calçada. Do outro lado da rua viu um dos vizinhos se esgueirando entre os carros. Abafou o impulso de gritar por ajuda, ao invés disso começou a correr até ele. Diante da casa de Karina havia um amontoado daqueles desmortos, debruçados sobre algo… Ou alguém. — Lucas! — Seus passos vacilaram. Havia uma poça de sangue no chão ao redor daqueles desgraçados. — Lucas! — De repente um grunhido próximo demais a tirou do transe, outros monstros que estavam na rua avançavam em sua direção.


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Saudações joviais!

Mais um ato de O Assunto Inacabados dos Boones postado no blog! E mais um conto que resolve de não querer terminar quando eu planejava que terminasse, da mesma forma que ocorreu em Sessão Pipoca dos Mortos. Digo, isso não é bem uma reclamação, na verdade é um bom augúrio, sinal de que a história tomou vida própria e desenrola independente dos desígnios do criador. Esse caminho fora dos trilhos é promissor!

No mais, aos que chegaram até aqui, espero que estejam gostando da história! E peço para que deixem comentários relatando sua experiência de leitura... As impressões que tiveram com personagens e acontecimentos, o que gostaram, o que desgostaram, feedback é sempre bom na busca de aperfeiçoamento! Claro, se o texto merecer, compartilhem com seus contatos nas redes sociais!

Obrigado pela companhia e pela atenção!

Bons ventos.

MWXS

Obs: seguem os links para os capítulos anteriores: 
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sexta-feira, 1 de maio de 2020

Caronte: O Assunto Inacabado dos Boones (Ato 2)


Escrito por
MIKE WEVANNE

Obs: leia capítulo anterior seguindo do link no final do post.

2.

Lucas Boones alcançou o topo das escadas e não viu Karina. Corredor e portas. Para trás, escada abaixo e desmortos avançando na sua direção. — Karina! — chamou a esposa enquanto dava os primeiros passos antes de decidir que entrada usar.

Sem obter resposta, escolheu entrar no quarto dos dois. Ao passar, bateu a porta, usou a tranca, apoiou as costas e fechou os olhos. Então seus joelhos tiveram que suportar a pancada quando vários corpos se chocaram contra a porta. Ao sentir a pressão estabilizar, empurrou uma cômoda para usar de escora. — Karina? — Olhou em volta. Nenhuma resposta.

Ele estava preocupado com ela. Mais do que consigo mesmo. Lucas tinha esse instinto de auto-sacrifício. Ele queria que ela estivesse segura, apesar do casal não se falar há muitos meses. Uma coisa idiota que ele tinha feito. Antes disso o casamento já não andava bem e o sobrenome em comum era apenas uma lembrança do fracasso em que o relacionamento dos dois tinha se tornado. Lucas mantivera a situação de maneira firme, não como se fosse insensível à falta de felicidade a qual dos dois estavam submetidos, mas queria edificar um porto seguro, mesmo com a vida conjugal desabando.

Percebeu que as pancadas na porta do quarto haviam parado. — KARINA! — chamou mais uma vez.

— Lucas, socorro! — O grito da esposa soou abafado através de algumas paredes entre a distância que os separavam.

Sem pensar muito, Lucas tirou do caminho a cômoda que estava escorando a porta e saiu do quarto. Viu um amontoado daquelas pessoas com ferimentos terríveis pelo corpo, roupas e peles esfoladas, disputando espaço enquanto forçavam a porta do banheiro. — Ei! — Correu na direção deles, puxou o primeiro em que pôs as mãos e o empurrou escada abaixo. Logo em seguida ele mesmo foi agarrado por uma mulher que tentou mordê-lo. Quando tentou se proteger, sentiu os dentes dela cravando na mão que usou para se proteger e os dois rolaram até o andar debaixo. Lucas ficou atordoado, a adrenalina fez com que conseguisse se levantar mas o tornozelo lhe deu uma fisgada de dor, reclamando de uma torção provocada pela queda. Os dois desmortos no chão também se erguiam mas ao contrário de Lucas, eles não se importavam com os ferimentos que possuíam.

— Ei! — Ele já havia obtido a atenção dos invasores que estavam no andar de cima, os corpos despencavam pela escada no caminho de volta para a sala de estar. — Karina, sai daí! — Lucas dividia sua atenção entre os dois monstros à frente e a porta no andar de cima, esperando que a Karina surgisse de lá.

Segundos de uma terrível ansiedade. O chamado foi atendido, uma cabeça apareceu tímida detrás da porta do banheiro. — Foge, mulher, pelo amor de deus! — Ele mal conseguiu vê-la atravessar o corredor e sumir na outra ponta. Missão cumprida.

Lucas estava ficando acuado. Contra a parede, com uma perna machucada e a mão sangrando. Estava prestes a ser apanhado pelos dois desmostos. Passou o corpo pela janela estilhaçada e conseguiu mais um corte. Trincou os dentes, esticou a perna para alcançar o chão do lado de fora, sentiu duas mãos rígidas rasparem as suas costas. Escolheu a perna errada, o tornozelo falhou. Tropeçou e caiu.

CONTINUA

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Saudações joviais!

É isso, mais um ato publicado no prazo certinho! É muito bom cumprir as metas de escrita!

Para quem chegou até aqui, agradeço qualquer comentário com impressões, sugestões e críticas, qualquer feedback será útil para saber onde estou acertando ou errando! Inclusive, a escolha de uma nova história de apocalipse zumbi veio através de alguns comentários recebidos, pedindo mais histórias com a experiência contada em Sessão Pipoca dos Mortos. Claro, além dos comentários, vou agradecer mais ainda se compartilharem os textos que gostarem com os contados nas redes sociais!

Nos vemos semana que vem, com mais um ato de O Assunto Inacabado dos Boones, se as Musas nos favoreceram!

Bons ventos.

Obs: para ler o capítulo anterior da história, siga esse link.

MWXS

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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Caronte: O Assunto Inacabado dos Boones (Ato 1)


Escrito por
MIKE WEVANNE

1.

Lucas e Karina Boones estavam sentados em sofás opostos de sua sala de estar. Ficaram ali durante toda aquela manhã de domingo, encarando um ao outro e quando se sentiam desconfortáveis, encaravam as paredes em volta. Não conversavam, mas o silêncio não era um problema, o aparelho de som estava tocando “Long Tall Sally” num volume alto demais para que pudessem se falar. Mas não faria diferença, porque eles não queriam.

Karina tentava se mexer o mínimo possível, para não mostrar o quanto suas mãos estavam tremendo. Assim que Lucas percebesse o quanto estava aflita, ela desabaria no choro. Lucas estava lidando melhor com a situação, na aparente tranquilidade que tentava dizer: — Olhe para mim, Karina, eu sou um homem que tem tudo sob controle! — Estava suando um pouco. Usou um lenço para limpar a testa. Era o calor ou era o esforço para esconder o nervosismo escapando pelos poros? E o maldito Little Richard gritando na sala não estava ajudando!

A casa dos Boones era um lugar respeitável. Condomínio fechado. Sua sala mostrava as comodidades de uma família bem constituída da classe média. Sofás confortáveis, uma mesa de centro moderna feita de madeira e vidro. TV grande, som surround. Ao redor, cortinas, quadros velhos, porcelana fria. Muitas fotografias mostrando Lucas e Karina junto de amigos e familiares, durante viagens e confraternizações.

Eram casados desde quando tinham vinte e pouco. Antes disso, já namoravam desde os meados da adolescência. Um casal apaixonado e feliz. “Destinados um ao outro” alguns diziam. Muitos sorrisos. Tinham uma energia cativante. Todos queriam estar perto dos Boones.

Com a passagem dos anos, aqueles retratos haviam se tornado janelas para a vida de dois desconhecidos. Um casal apaixonado e feliz. Definitivamente, não eram as mesmas pessoas que estavam naquela sala. Sentadas, mudas, insondáveis uma para a outra.

Não tinham mais nada para dizer, só podiam esperar. Naquele momento desenganado, apenas dois pares de olhos perdidos, de duas pessoas tentando lidar com uma situação sem jeito. Ela buscava conforto e ele confortá-la. Ambos estavam fadados ao fracasso e ainda nem estamos no final da história. Então a música terminou.

O barulho das pancadas violentas na porta e nas janelas puderam ser ouvidas novamente. Pessoas gritando do lado de fora. Nada que fizesse sentido. Karina encolheu no sofá, esperando a próxima música começar e abafar o caos vindo da rua e voltar para a sua falsa sensação de segurança dada pela ignorância dos sentidos.

Quando Little Richard começou “Tutti Frutti” era tarde demais. Não que estivesse fazendo qualquer diferença até então, ou fosse mudar a sucessão dos acontecimentos que seguiriam, mas Karina tinha essa esperança morta dentro de si e se agarrava a ela. Lucas, por outro lado, sabia que a morte era a única certeza daquela situação. Ela queria manter a ilusão enquanto ele só queria que tudo acabasse de uma vez.

A porta e as janelas se despedaçaram sob a força dos estranhos que invadiram a respeitosa casa dos Boones. Karina correu para o lado oposto e Lucas foi atrás. Perseguidos por uma multidão ensanguentada. Os invasores tinham muitos ferimentos. Cortes, mordidas, lacerações, pedaços dos corpos faltando. Deviam estar mortos, mas as bocas escancaradas e a disposição com que botavam a sala de Lucas e Karina Boones abaixo deixava claro o absurdo do contrário. Sob o peculiar infortúnio, aquela bela sala tinha perdido totalmente o charme. Difícil manter a harmonia da mobília quando tudo está sendo revirado e sujo de sangue por desmortos cambaleantes tentando matar os donos do lugar. Até o Little Richard se calou.


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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Caronte: Sessão Pipoca dos Mortos (Ato 5)

Escrito por
MIKE WEVANNE

Dedicado a
PBG e AAV

Obs: leia os capítulos anteriores seguindo o link no final do post.

5.

— SOCORRO! — Um grito acordou Prisco. No susto, esticou as pernas e chutou um jarro de plantas. Ainda estava sentado na sacada do apartamento. Tinha caído no sono.

Levantou-se e reparou a manhã surgindo no horizonte entre os prédios ao redor. A serenidade matutina quase o fez duvidar do que havia acontecido. Lembrou do grito. Duvidou se realmente tinha escutado alguém pedindo ajuda ou se havia tido um pesadelo. Esfregou o rosto com as mãos e deixou algo murmurado escapar pela garganta. Nenhum pesadelo poderia ser pior do que a realidade.

Olhou para o interior do apartamento, havia apenas penumbra e silêncio. Andréa tinha ido descansar no sofá. Precisou. A mordida que tinha sofrido ficou bem feia. Quando ela começou a se sentir febril, Prisco desconfiara que poderia ser a inflamação do ferimento ou o estresse daquilo tudo. Provavelmente ambos, então ele havia pedido para ela ir deitar enquanto ele ficaria de vigília. O sono poderia lhe fazer bem. Quando Daniel chegasse eles poderiam procurar por Michelle e depois iriam até um hospital cuidar da mordida. Tudo ia acabar bem. Prisco prometera para Andréa que tudo acabaria bem.

Lembrar de Michelle não fez bem para ele. A culpa lhe deixou inquieto. Tentou espiar novamente as sacadas dos apartamentos vizinhos, até ensaiou alguns passos pelas beiradas da fachada do prédio para tentar alcançar uma saída alternativa de onde estavam presos, mas quando as pernas começaram a bambear, voltou de imediato com o coração pulando pela garganta. Prisco queria muito saber sobre Michelle. Estava preocupado de verdade. Ou queria apenas descarregar o fardo da consciência por tê-la abandonado do lado de fora?

— Michelle! — Sussurrou enquanto se esticou para além da sacada na direção do apartamento vizinho. — MICHELLE! — O grito veio depois que o esforço tinha acabado com o seu fôlego e a sua paciência.

Foi quando ele ouviu um barulho do lado de dentro do seu próprio apartamento. Uma pancada seca, como alguém caindo no chão. Prisco se encolheu e voltou mais uma vez para a segurança da sacada. Lembrou da trágica tentativa de fuga de Andréa e conferiu as chaves no bolso. Seu grito devia tê-la acordado e o susto feito ela cair do sofá.

Entrou e foi até a sala.

— Andréa? Acordou? — Prisco sussurrou preocupado. — Andréa, como está a mordida?

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Os primeiros minutos do amanhecer trouxeram luz e calor. Timidamente, ainda assim carregavam conforto e esperança.

— Foda-se! — Com um salto derradeiro Michelle conseguiu alcançar a sacada do apartamento de Prisco. Quando tentou firmar o pé, escorregou num bocado de terra de um jarro quebrado. No chão, ela respirou fundo, aliviada e com as pernas ainda tremendo pela proeza da escalada. Resultado da aplicação prática dos vídeos de parkour que gostava de assistir na internet… E da adrenalina, que fizera com que ela agisse primeiro e pensasse a respeito depois, sobre o absurdo que isso significava.

Levantou-se do chão. Tirou a terra das mãos e do traseiro. Não era como se a calça jeans já não estivesse suja antes. Olhou para baixo, viu a altura em que estava, conferindo o apuro pelo qual passou. — “Parkour de internet? Sério?” — A ideia parecia razoável no momento. Depois de ter escapado de lunáticos canibais.

Foi quando ela ouviu um som vindo lá debaixo. Disperso na rua deserta, o único som além do seu coração batendo. Um carro dobrou a esquina.

Michelle ficou muda. Era Daniel? — “Qual era a cor do carro dele?” — A ansiedade aumentou quando o veículo parou diante do prédio. Ela acenou. Os longos minutos em que nada aconteceu a fizeram machucar os lábios entre os dentes. Lembrou dos amigos. Olhou para o interior do apartamento, ficariam felizes de vê-la! Mas primeiro queria ter certeza e entregar a boa notícia. Ela estava viva e Daniel havia chegado para resgatá-los! Andréa deveria ter passado a madrugada inteira aflita pela amiga.

Uma pessoa saiu do veículo. Homem. Ele olhou ao redor, desconfiado. Ninguém mais. Então olhou para cima e acenou de volta. Era Daniel.

— É ele! — Michelle gritou animada. — Pessoal, é o Daniel!

Michelle o viu correndo para dentro do prédio. Então se virou para procurar os amigos. — Andréa! Prisco! O Daniel chegou, vamos embora!

Quando chegou à sala, viu a bagunça do lugar. Coisas caídas, TV no chão, sofá derrubado. Muito sangue. E a resposta de ninguém. Sentiu o coração ser engolido por algo frio e seu corpo congelou. — Pessoal, cadê vocês?

Ouviu um murmúrio. Vindo do corredor, alguém da cozinha para a sala. Passos vagarosos, arrastados. Andréa surgiu. Seu olhar perdido, sua roupa ensanguentada.

Michelle recuou, com os olhos marejados e os lábios trêmulos. Quando Andréa percebeu sua presença correu na sua direção. A boca escancarada não emitia mais do que murmúrios desesperados. E suas mãos estiradas buscando Michelle, como quem quisesse roubar um beijo.

FIM?

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Saudações joviais!

É isso. Depois de um atraso inconveniente consegui terminar o primeiro conto aqui no blog. Agradeço demais aqueles que disponibilizaram tempo e atenção aos textos publicados aqui, espero que tenham gostado da experiência!

O que acharam? Qual foi sua parte preferida? Qual foi a parte que não curtiu? Gostaria de ler mais histórias de apocalipse zumbi aqui no blog? O Comentário que for vai me ajudar bastante a melhorar o conteúdo do blog! E se a viagem valeu, que tal compartilhar com os amigos?

Sem mais, novamente, obrigado! Semana que vem embarcaremos uma nova história!

Bons ventos.

MWXS

Obs: seguem os links para os capítulos anteriores de Sessão Pipoca dos Mortos:
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sábado, 25 de janeiro de 2020

Caronte: Sessão Pipoca dos Mortos (Ato 4)

Escrito por
MIKE WEVANNE

Dedicado a
PBG e AAV

Obs: leia os capítulos anteriores seguindo os links no final do post.

4.

Abafando os gritos desesperados de Andréa, a dupla ouviu um urro semi-humano, animalesco demais para ser produzido pela garganta de um homem. Sob a penumbra, Prisco e Michelle chegaram à sala e encontraram um invasor atacando Andréa. Suas costas e os braços estavam cobertos de algo escuro. Escuro como sangue nas sombras. Andréa golpeava seu agressor enquanto ele a agarrava com as duas mãos e debruçava a cabeça sobre ela, como quem quisesse forçar um beijo.

Michelle atravessou a sala e saltou sobre as costas do estranho, envolveu o pescoço do homem com uma chave de braço e jogou o corpo para trás, mas ele não largou sua amiga. Prisco chegou em seguida, com uma pancada conseguiu libertar Andréa. Agarrou o invasor pela camisa e o jogou na direção da porta, que estava aberta. O peso de Michelle pendurada em seu pescoço fez com que o homem perdesse o equilíbrio. Além dos braços e ombros, o estranho também tinha o rosto e o pescoço ensanguentados. Prisco lhe acertou um chute no meio do peito. Ele cambaleou para fora do apartamento, e caiu no corredor.

Com Michelle ainda agarrada em suas costas.

Prisco viu a amiga sendo engolida pela escuridão do corredor. Um raio de luz surgiu, apontado de maneira caótica naquela direção, Andréa tinha pegado a lanterna e tentava ajudar. Eles conseguiram ver Michelle se arrastando para longe do homem que havia caído junto com ela e então a atacava. — Michelle! — Andréa gritou quando a amiga saiu do seu campo de visão. Foi quando eles ouviram uma comoção barulhenta, aquela confusão havia atraído os outros invasores que estavam naquele andar do prédio. Os urros cada vez mais altos e ferozes chegaram aos ouvidos de Prisco como uma onda de terror que se aproximava, o desespero atiçou seu instinto e seu instinto guiou sua ação: correu até a porta e a fechou pouco antes que pancadas furiosas a atingissem. Se ele não tivesse usado a tranca, apenas o seu corpo não teria sido suficiente para impedir que o arrastão tomasse o apartamento.

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Michelle havia se chocado contra a parede e caído no chão atordoada e sem fôlego. Teve apenas um instante para perceber onde estava e quando o fez, seu corpo foi tomado por um calafrio de puro medo. Estava no corredor. O homem com quem tinha caído também estava chão, ele grunia e avançava sobre ela. Na penumbra, um facho de luz surgiu e se revezou indeciso entre focar nela ou no seu agressor. Michelle conseguiu ver num relance os olhos furiosos com que ele a encarava, cuspindo baba e sangue, lançando suas mãos para agarrá-la mais do que estava preocupado em se equilibrar. Ela reconheceu o uniforme do porteiro do prédio. Michelle conseguiu acertar os dois pés em seu rosto e se projetou pro lado. Arrastou-se para longe dele e ouviu Andréa gritando seu nome.

Quando olhou para trás, viu o corredor, que estava escuro como todo o resto, a luz da lua conseguia entrar dentro do prédio por janelas e portas abertas, permitindo que ela visse a massa disforme de vultos correndo em sua direção, gritando e urrando, correndo e cambaleando, fora de controle. Michelle ouviu a porta do apartamento de Prisco bater a alguns metros entre ela o arrastão de loucos, restando apenas ela, as sombras e a morte adiante. Ela virou-se para o lado oposto, levantou e saiu correndo.

Mas foi impedida quando sentiu seu calcanhar ser agarrado pelo pulso gelado e viscoso do porteiro.


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Abaixo seguem os links para a leitura dos capítulos anteriores de Sessão Pipoca dos Mortos:

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Caronte: Sessão Pipoca dos Mortos (Ato 3)

Escrito por
MIKE WEVANNE

Dedicado a
PBG e AAV

Obs: os links para capítulos anteriores desta história estão no final do post!

3.

Detrás da porta do apartamento de Prisco, os três ouviram pessoas pelo corredor, correndo aos apelos de socorro do vizinho. Michelle quis ajudar, tentou tomar a chave do amigo, mas ele protestou.

— Tá doida? Tu não sabe o que tá acontecendo lá fora!

Os gritos tomaram o corredor do andar onde estavam. Barulho de luta. Gritos, xingamentos. E urros insanos de alguém demente. Andréa chorava. Em sua mente desesperada tinha certeza de que o prédio estava sendo alvo de um arrastão violento. Dividiu a apreensão com os amigos. Prisco suava feito um porco. Estava nervoso, com as costas apoiadas na porta e os pés cravados no chão. Pronto para tentar segurar qualquer coisa que tentasse forçar passagem. Michelle estava paralisada, não sabia o que fazer. Queria ajudar, ser útil, mas não fazia ideia de como.

Quando aquele escarcéu passou, ouviam apenas grunhidos incompreensíveis e passos perdidos pelo corredor do lado de fora do apartamento. Imaginaram o pior, não ousaram fazer barulho e atrair quem estivesse vagando ali. Os três atravessaram a noite naquela desesperança.

As ligações pro número da polícia eram inúteis, o sinal de linha ocupada era a única resposta que conseguiam.

Ananda, namorada de Prisco, ligou para o celular dele. Disse que estava segura e com a família. Explicou que o surto da tal super gripe havia piorado e as pessoas estavam manifestando ataques nervosos violentos. Era o que as notícias diziam, pelo que ela havia acompanhado na internet. O celular de Prisco foi o primeiro a ficar com a bateria descarregada.

Daniel, noivo de Andréa, ligou para ela. Ele estava na estrada, voltando para a cidade. Prometeu que ia buscá-la. Ela estava apavorada, queria ir para casa e encontrar a própria família. — “Sexta-feira 13 desgraçada!” — Saber que o namorado estava a caminho a tranquilizou.

Ninguém ligou para Michelle.

Alguns minutos depois a rede de conexão com a internet caiu de vez e os celulares se tornaram nada mais que lanternas. Michelle insistiu em checar o corredor, mas seu amigo não deixou. Ela não gostou de se sentir trancada por Prisco, mas conforme as horas passaram os instintos dos dois se inverteram. Prisco tentou espiar o apartamento vizinho pela sacada e até arriscou escalar a fachada do prédio buscando alguma saída, mas depois de um pequeno escorregão e uma bela encarada para o chão, cinco andares abaixo, resolveu que o risco não valia.

Michelle se resignou a esperar o amanhecer para tomar alguma decisão, afinal poderia ser o tempo da energia elétrica voltar a funcionar. Pareceu um plano razoável diante daquela crise. Prisco começou a sentir uma preocupação crescente com Ananda e alimentava a ideia de ir encontrá-la. Brincava com as chaves entre os dedos, mostrando inquietação. Michelle percebeu. Acabou o convencendo de que poderiam esperar Daniel, que vinha buscar Andréa, então aproveitariam a carona. Andréa gostou de terem incluído Daniel nos planos, desse modo sentiu que ela mesma estava ajudando.

Os três foram para a sacada e ficaram esperando. E esperaram. Abaixo deles, no nível das ruas, ocasionalmente viam pessoas vagando a esmo. Solitárias ou em grupos, as vezes correndo umas das outras. Viaturas policiais e ambulâncias passavam velozes. Todos pareciam vir de lugar algum e ir para qualquer lugar. Gritos desesperados ou grunhidos furiosos ressoavam distantes, abafados pela altura em que estavam.

As horas passaram enquanto esperavam ansiosos o carro de Daniel surgir dobrando a esquina. O vento frio da madrugada roubava mais do que o calor dos seus corpos, também lhes tirava todo o ânimo. Num estalo, Andréa reparou no fato de que mesmo com a chegada do seu namorado eles ainda não sabiam o que estava acontecendo no prédio. Como ele ia chegar até eles? Como o avisariam sobre o perigo vagando pelo corredor? Isso a perturbou. Michelle catou uma garrafa de cachaça perdida na cozinha e Prisco a acompanhou. Foram duas doses para cada, a primeira para espantar o frio, a segunda para acalmar os nervos. Foi quando ouviram um barulho na sala e um grito de mulher. E perceberam que Andréa não estava por perto. Nem as chaves estavam mais com Prisco.


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Leia os capítulos anteriores através dos links abaixo!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Caronte: Sessão Pipoca dos Mortos (Ato 2)

Escrito por
MIKE WEVANNE

Dedicado a
PBG e AAV

Obs: leia o primeiro capítulo dessa história clicando aqui!

2

Pelas janelas do apartamento descobriram que boa parte da cidade estava coberta por um apagão. Ao menos viam que a falta de eletricidade alcançava o horizonte. Prisco foi buscar algumas velas enquanto Andréa e Michelle usavam a iluminação dos celulares para enxergar no escuro. A gritaria no apartamento debaixo piorava, mas o barulho caótico não permitia que discernissem qual era o motivo da briga.

— Gente, que inferno é esse que tá acontecendo lá em baixo? — Michelle começou a andar em direção à porta.

— Aonde tu pensa que vai, mana? — Andréa era quem estava mais abalada. As sirenes e o som de fogos (que ela desconfiava que eram tiros) em pontos distantes do bairro a perturbavam. A deixavam inquieta.

— Só vou dar uma espiada no corredor, relaxa.

Quando ela pôs a mão na maçaneta uma luz jogada no seu rosto ofuscou sua visão.

— Aonde tu pensa que vai, mana? — Dessa vez foi Prisco quem lhe inquiriu. Estava com uma lanterna. Ele adorava encontrar ocasiões para usar o equipamento de camping que tinha comprado há uns anos. Mas Prisco acampava pouco.

— Meu deus! Vou só dar uma espiada no corredor! Relaxem vocês dois!

Michelle viu que o corredor não estava tão escuro quanto esperava. Haviam outras pessoas nas portas dos outros apartamentos. Apontavam a lanterna dos celulares umas para as outras e conversavam sobre o escarcéu no andar debaixo. Não ouviam mais discussão, apenas o som de coisas sendo quebradas. E gritos.

— Alguém ligou pra polícia?

Os vizinhos confirmaram. Estavam apreensivos.

De repente um estouro alto e seco. Depois mais dois. Desta vez definitivamente não eram fogos de artifício! Todos gritaram de susto e começaram a entrar desesperados em seus apartamentos.

— Que porra foi essa, Michelle? Saí daí! — Prisco a puxou bruscamente e bateu a porta. Girou a chave. Duas vezes.

Do andar debaixo ouviu-se mais gritos e então silêncio. No corredor do lado de fora algumas portas ainda estavam batendo e sendo trancadas.

Prisco sussurrava. — Vocês que tão com o celular na mão, liguem pra polícia, caralho! — Estavam com medo de fazer barulho demais e serem ouvidos. Serem ouvidos por alguém armado e potencialmente perigoso. Perigoso e que se encontrava no prédio durante aquele maldito apagão!

Michelle ligou 190. “No momento, todas as nossas linhas estão ocupadas. Tente novamente em alguns minutos.”

Prisco a encarava. — E aí???

— Tô ligando! Calma!

Ouviram uma pancada forte vindo do corredor. Alguém estava batendo na porta de um apartamento vizinho. Os moradores de lá começaram a gritar. Do corredor alguém gritou de volta. Mas não era um grito normal de desespero ou raiva. Algum tipo de louco estava lá. Gritava como um animal. Rosnava como um animal. Pior, ainda deveria estar armado!

Michelle tentou novamente. “No momento, todas as nossas linhas estão ocupadas. Tente novamente em alguns minutos.”

— E aí??? — Prisco a cutucou e ela levou um susto.

— Tô ligando, caralho!

As pancadas e gritos tomaram o apartamento ao lado. Entre apelos de socorro dos vizinhos desesperados, o rosnado insano de um louco. Os nervos de Andréa estavam devastados. — Meu Deus, o que tá acontecendo?

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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Caronte: Sessão Pipoca dos Mortos (Ato 1)


Escrito por
MIKE WEVANNE

Dedicado a
PBG e AAV

1.

— Porra, Prisco, deixa de ser chato! — Andréa ficava inconformada quando Prisco cismava com seu namorado. — Te preocupa com a Ananda e deixa meu namorado em paz!

— Mas é a realidade, ué. Pode acontecer! — Ele deu de ombros contra o inconformismo da amiga. A cômoda postura de quem está com a razão.

Michelle, que assistia a conversa dos dois, só queria que aquela discussão acabasse. — Poder pode, mas não ajuda em nada a situação da nossa amiga, né? — Ela era a única solteira do trio e lembrar mesmo das partes complicadas de um relacionamento era algo que levava seus pensamentos para outro lugar. “Maldito ascendente em peixes!” ela pensava enquanto esperava que os dois terminassem a desavença.

— Bom, isso é. — Prisco deu uma risada cínica. A cômoda atitude de quem recua mas mantém o que tinha dito.

O que apenas deixou Andréa mais irritada ainda. Ela já abria a boca para replicar quando Michelle interrompeu novamente, mudando o assunto e o rumo das coisas.

— Gente, vamos escolher o filme ou não? É sempre isso. A semana inteira para combinarmos e acabamos deixando para se decidir em cima da hora! — Ela zapeava no aplicativo conferindo o acervo de filmes disponíveis.

— Eu já disse o que quero ver. — Prisco levantou do sofá e foi em direção à cozinha. — Decidam aí enquanto eu faço pipoca.

— Acho que podemos ver esse. Fiquei curiosa. — Ver Andréa concordando com Prisco sobre o filme deixou Michelle mais tranquila.

— Pronto! Estamos progredindo! — Michelle releu a sinopse. Um assassino, uma casa mal assombrada, possessão demoníaca. Perfeito. — Vai ser esse, então!

Tudo estava preparado para que enfim aproveitassem a noite de sexta-feira com um bom filme de terror. Precisamente, uma noite de sexta-feira 13 de lua cheia! Michelle se animava com o simbolismo astrológico. Andréa gostava de reunir os amigos. Prisco se divertia pregando sustos nas amigas. O som de milho estourando vinha da cozinha.

— Gente, as vezes fico besta quando percebo o quanto estou desligada das notícias! — Michelle achava engraçado quando Andréa metia assuntos aleatórios numa conversa. — É sério! Tudo agora é streaming, séries, filmes… Eu não vejo mais jornais, acredita?

— Eu acredito! Também faço a mesma coisa. Só essa semana eu fiquei sabendo dessa nova gripe fodida que está tendo por aí. É só mais um motivo pr’eu ficar quiesta e não sair de casa nem pelo caralho!

— Mas tu vive no mundo da lua de qualquer jeito, né, mana?! — Andréa riu.

Michelle concordou e riu também. “Maldito ascendente em peixes!”

A pipoca chegou. Pelo cheiro e pela cara, estava ótima. — Senhoras, modéstia que se foda, minha pipoca tá uma obra prima! — Prisco distribuiu as tigelas, encheu os copos com refrigerante, desligou a luz da sala, assumiu o comando do aplicativo de streaming.

Deu o play.

A energia elétrica caiu. Tudo ficou escuro. Eles ouviam sirenes distantes, fogos estouravam em algum lugar do bairro. Seriam tiros? Pessoas estavam discutindo feio no andar de baixo. Gritos. O que estava acontecendo?


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